sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Os encantos do nosso sertão!




















Quando morei em Campinas, SP, diversas vezes vi os olhos curiosos de meus colegas de trabalho, quando eu falava sobre tomar banho de chuva, passear de carroça pelo sítio...E quando eu falava em cerca de pedra, passa-disso ou mata-burro?! Era um dia inteiro de explicações, porque ninguém tinha visto e nem tinha idéia do que se tratava...E eu me estendia pelas histórias com nossos personagens, explicando que por aqui vemos homens de 80 anos que lembram a célebre frase de Euclides da Cunha: "o sertanejo é antes de tudo, um forte..." Homens que trabalham diariamente e incansavelmente no campo, que vivem pelo prazer de aguardar o inverno, de fazer "experiências" para descobrir se o inverno vem, homens que acordam na madrugada e seguem na luta do campo, que descobrem no dia-a-dia mil maneiras de fazer o gado se alimentar e sobreviver; mesmo quando a chuva demora a chegar...Mulheres que cozinham no fogão à lenha, mesmo quando já tem o fogão à gás, porque defendem que no fogão à lenha a comida é mais gostosa; mulheres que têm muitos filhos e ficam alegres em contemplar a mesa cheia de filhos, sentados num largo banco de madeira...
No domingo passado, 20 de janeiro, fui ao sítio do Sr. Doca Cipriano e D. Joaninha Januário: um alpendre, um fogão à lenha, o cafezinho da tarde, as azeitonas, mangas e batata-doce (arrancadas do pé), o peixe fresco pescado na barragem, trazido para casa na "imbiricica" (você conhece?), os "causos" contados no banco de madeira, a gruta de Maria Lúcia que viveu ali nos anos 20 ou 30...O olhar satisfeito de Sr. Doca e D. Joaninha em receber amigos na sua casa e em presenciar seus filhos cuidando da luta com o gado e ovelhas...Aquele som de chocalhos, o espetáculo do sol indo embora, escondendo-se no Serrote da Cachoeirinha...Este é o nosso sertão.
Certa vez, li um texto de uma acreana chamada Thaís Cazuza, que dizia "eu saí do mato, mas, o mato não saiu de mim". Eu digo que qualquer um de nós, nascidos no sertão, podemos ganhar o mundo por aí, mas este sertão, este mundo que é tão nosso, não saí da gente; porque não está somente na lembrança, nos livros ou nas fotografias. Este sertão é tão nosso, que está fincado na alma e na história de cada um.


Um abraço sertanejo!

Fotografias: Anna Jailma
Anna Jailma - jornalista e blogueira

7 comentários:

claudia souza disse...

Olá Anna,olha concordo plenamente com tudo que vocÊ falou, pois já tem muitos anos que deixei o meu sertão, mas nunca consegui esquecer a paz e a tranquilidade que a vida no sítio nos traz.beijos!!!!Claudine

Geraldo Anízio disse...

Jailma, esse é o meu sertão cheio de coisas que a gente não esquece.Essa é minha terra.Ao ler sua reportagem, encheu-me de saudades das maravilhas do sertão, ao falar da vida costumeira do sítio. Nunca morei no sítio, mas está na minha veia Jailma. Esse sertão antigo e moderno, cuja vida mais parece uma sonata de Beethoven.Palmas pelos seus ideais maravilhosos.

João Quintino disse...

Jailma, não conheço o sítio de Doca Cipriano, mas tenho particular interesse nele por causa da lenda da cabocla da gruta. As imagens são encantadoras, me dá nostalgia de coisas que não vivi, pois nunca morei no sítio. Talvez meus genes estejam impregnados das lembranças dos meus antepassados. Abraço!

Anônimo disse...

Anna, fiquei encantada com a reportagem e as fotos. Elas beiram poesia se assim já não são todas. A temática sertão enternece-me e enleva-me não de menos modo, amo esse rincão, essa terra seca que reverdece com um simples gotejar de chuva e esperanças contidas de nossa gente, que por assim ser, perece ser mais e ser- tão, nesses tantos cantos nossos de valentia , sobrevivência, sonhos e encantos.Como muitos ainda posso em lugar semelhante colher crepúsculos, estiagem e aragem de novos tempos e isso abastece-me da beleza essencial para viver esses tempos momentâneos e vindos.
Merece aplauso, se soubesse como fazer com o teclado o faria.Beijos. Flávia ( São José do Seridó_RN)

ANNA JAILMA - annajailma@yahoo.com.br disse...

Claudia, Geraldo Anízio, o vizinho João Quintino e Flávia, muito obrigada pelos comentários valiosos, que engrandecem o blog. Sei que este sertão está em cada um de nós, sertanejos de corpo e de alma. Grande abraço.

Valderi Queiroz Xvaier disse...

Parabéns pela poesia em forma de fotos, você é uma verdadeira poetisa construtivista, imagens comuns ao nosso nordeste querido de "mãe preta" e "pai joão".

ynes Motta disse...

Olá, Jailma. Não nos conhecemos... eu estava à procura de imagens para postar no meu blog e deparei-me com este belo trabalho teu! Lindas imagens, texto perfeito. parabéns.
Um abraço!