sábado, 17 de maio de 2008

A música dos valores perdidos


O crítico musical José Teles, do Jornal do Commercio, em Recife PE, publicou no último 06 de maio, o artigo "A música dos valores perdidos", destacando exatamente a desvalorização do nosso forró autêntico, com músicas do chamado "forró eletrônico" que retratam a inversão de valores da sociedade moderna, em que vivemos.
O artigo faz refletir sobre a realidade musical que nos cerca...e alerta para o fato de que "alguma coisa está fora de ordem" e "alguma coisa está muito doente". Complemento a afirmação do crítico José Teles, afirmando que esta "alguma coisa" é a mente, a consciência. A mente da humanidade está doente, o bom senso está em extinção e o controle de qualidade é inexistente.
O artigo não está na íntegra. Divulgo aqui os principais pontos do artigo e querendo verificar na íntegra, basta clicar no endereço eletrônico da fonte, abaixo do texto.

Não somente leia. Leia e reflita!

Foto: divulgação
Anna Jailma - jornalista e blogueira


A música dos valores perdidos


'Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.
O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhado uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou... Para uma matéria que escrevi no São João passado, baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.
Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiás juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.


2 comentários:

Moacy Cirne disse...

Repito as palavras do Mestre Ariano: "Eita que é pior do que pensava". Incrível - por dois motivos básicos: pela qualidade (???) das letras, pela qualidade (???) estética das músicas. Parabéns por ter divulgado (parcialmente) o texto de José Teles; é preciso resgatar o forró autêntico, o forró pé-de-serra. Um beijo.

ANNA JAILMA - annajailma@yahoo.com.br disse...

Moacy,

O blog À Flor da Terra agradece o complemento, muito bem-vindo. Obrigada.