domingo, 11 de maio de 2008

Pânico, em família

Ontem a noite passei um sufoco que me lembrou aquelas inundações que a gente só vê pela TV, levando automóveis na correnteza. Fui para o sítio Quixeré com meu primo Marcelo, a esposa dele (Cida), os dois filhos deles, de 15 e 16 anos, e meu namorado. Saímos de São João ontem à noite, na expectativa de haver novena de São João Batista lá, conforme estava programado.
Chovia um pouco quando saímos. Logo depois da Matinha, Marcelo avistou bastante água, mas, optou em entrar com a caminhoneta (uma Ranger) pensando ser um pequeno e inofensivo riacho. A caminhoneta atolou no meio d’agua e a água começou a entrar. Ele tentou retornar e a caminhoneta não deu sinal. Os vidros estavam fechados e Marcelo por um momento, não conseguia abrir a porta. Quando saímos, já em pânico, querendo quebrar os vidros, a água estava na nossa cintura, fora da caminhoneta.
Quando subimos na carroceria, a água já estava chegando também lá. Descemos e saímos caminhando, até a terra firme. A água continuava subindo, mas saímos e caminhamos aproximadamente 2km. Antes de chegarmos na casa da Matinha, encontramos Pipa, filho de Antônio Poroca, que vinha de moto. Ele foi até a caminhoneta e retornou com a notícia que a água tinha coberto o capuz. Aguardamos o volume d’agua baixar. Eu e Cida fomos para a casa de Pipa. De lá, ligamos para tio Manoel Úrsula, no Quixeré.
Uma hora depois, meu tio veio com 11 sobrinhos e conseguiram “arrancar” a caminhoneta. Até a chegada deles, Marcelo, os dois filhos e meu namorado, estavam na estrada à espera do pessoal.
Foi um sufoco! Lembrei a todo instante do acidente ocorrido com Cidinha Wanderley e seus filhos, ocorrido em 1986, quando um carro atolou também a noite, na chuva, e não conseguiram abrir a porta do automóvel; que também estava de vidros fechados. O gás que sai pelo cano de escape, retornou para o carro e duas filhas dela morreram dentro, sendo que horas depois encontraram Cidinha e o filho Bebeto desmaiados. Esta história passava na minha mente como um filme, enquanto eu via a água subir pelo lado de fora da caminhoneta e tentava abrir a porta. Em todos os momentos, eu rezava pedindo a proteção de Maria, Mãe de Deus.
Chegamos no Quixeré, aproximadamente às 22h30. O motor da caminhoneta foi invadido pela água, minha máquina digital até agora não deu sinal de vida e nossos calçados devem estar suspensos em alguns galhos de jurema, mas, “que levem os anéis e permaneçam os dedos”.
A novena não houve. O padre desistiu antes de chegar na Matinha e retornou para a cidade. Também nos avisaram que um “barreiro” foi embora no sítio Pedra e Cal; talvez por isso, havia tanta água e com correnteza.
A lição: Viajar a noite, chovendo, é imprudência. Tentar atravessar água sem conhecer a profundidade é risco de vida. Deus e Maria amam e protegem seus filhos, incondicionalmente; até mandam anjos, salva-vidas, nos salvar... E como dizia o professor João Braz, na época do CDS: “o tamanho de nossa força corresponde ao tamanho de nossa fé”.
P.S - A notícia de que um barreiro foi "embora" no Sítio Pedra e Cal, nos foi informada na noite do sábado, dia 10, quando chegamos no Quixeré. A notícia chegou lá através de pessoas do sítio Mossoró. Caso não tenha ocorrido, isto significa que "riachos" são mais perigosos do que parecem, pois, mesmo sem "arrombamentos" de barreiros, podem causar transtornos.
Anna Jailma - jornalista e blogueira

3 comentários:

Zuli disse...

Oi Jailma, que grande susto! Eu fiz uma viagem no tempo e lembrei-me de uma tarde chuvosa de 1967. Não existia a ponte do Rio Carnaúba, e ele começava a chegar com bastante água barrenta. Como "Nego do Õnibus" era acostumado a passar naquela passagem tentou passar naquela situação. Não conseguiu, o ônibus não ia mais para frente nem para trâs. Estava lotado de adolescentes que faziam o curso ginasial. A Zeli de Quiezinho coube conseguir abrir a porta de emergência - a da frente não abria - que segundo Nego à uma semana havia tentado abri-la com uma marreta e não havia conseguido porque nunca havia sido aberta. No sufoco saímos e ao tentarmos ultrapassar o rio com água muito forte, todos de mãos dadas, metade voltou e a outra metade atravessou o rio. Minutos depois chegou também um "anjo". Era o finado Neneco, pai de Gorete (já falecida) que havia ficado do outro lado do rio. Nunca esqueci do que aconteceu naquela noite, pois este homem com a chuva incessantge saiu de casa em casa para conseguir rede para todos dormirem, foi providenciado um jantar reforçado com imbuzada, e um gesto de solidariedade que até hoje relembro com gratidão. A outra metade ficou na casa de Inacinha, há alguns quilômetros do rio, e só no dia seguinte conseguiu chegar em São João juntamente conosco. Só por um milagre a água não carregou ninguém. Só o ônibus que a água carregou, depois consertaram o motor e viajávamos nele com os alunos de Jardim de Piranhas chamando lata de maracujá. Come era mais difícil a vida de estudante naquela época!!! Grande abraço e que só tenha essa história para contar do grande inverno de 2008. Grande abraço. Zuli

ANNA JAILMA - annajailma@yahoo.com.br disse...

Zuli,
Seus comentários sempre enriquecem o blog. Esta história relatada por você, é sempre relembrada por minha mãe Ermita; porque na ocasião, minha tia Lourdes estava no ônibus. Realmente os estudantes daquela época viviam verdadeiras aventuras em prol da aprendizagem. Hoje os da zona rural também lidam com algumas dificuldades de percurso nesta época de inverno, inclusive, as vezes ficando "ilhados".
Muito obrigada pelo comentário. Abraço para toda família.

Zuli disse...

Jailma, apenas para precisão da informação, fiz uma reflexão, e sua mãe poderia confirmar, penso que foi no ano de 1966. Em 1967 ficamos em casa de estudante, e na semana santa o ônibus que nos traria para São João não pode passar na sangria do açude Itans e viemos a pé Caicó até as placas. Saímos de Caicó a tarde. No caminho - e que caminho distante para se fazer a pé - Isolete de Totoinho, uma das estudantes, foi acometida de uma crise de apendicite, e ao chegarmos nas placas, fomos correndo até o acampamento do açude Santo Antonio, que nos socorreu com uma caçamba do DNOCS. Ao chegar no Riacho das Cinzas, aquela grande curva a direita antes de São João a estrada havia rompido e daí até São João fomos novamente a pé. Tudo por uma semana santa na nossa Sanja. Grande abraço. Zuli