segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sentimentos do milho...


Neste final de semana, por ocasião da confraternização da Filarmônica Recreio Caicoense, de Caicó, RN, conheci a Oração do Milho, de Cora Coralina.
Transcrita pelo artista Jonas Tito, a oração estava no alpendre da casa da Chácara de Aparecida Medeiros e Sarinho, onde houve a confraternização nos dias 22 e 23 de novembro.
Deixo aqui a Oração do Milho, para conhecimento dos leitores do blog.
Anna Jailma - jornalista e blogueira
Foto: Hercílio

Oração do Milho


Senhor, nada valho!
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e hastes e se me ajudardes, Senhor, mesmo planta de acaso solitária, dou espigas e devolvo, em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura, não me pertence a hierarquia tradicional do trigo e de mim não se faz o pão alvo universal.
O Justo não me consagrou o pão da vida, nem lugar me foi dado nos altares, sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra onde não vinga o trigo nobre; sou de origem obscura e de ascendência pobre, alimento dos rústicos e animais de jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques coroados de rosas e espigas; quando os hebreus iam em longas caravanas buscar na terra do Egito o trigo dos faraós; quando Rute respigava cantando nas searas de Booz e Jesus abençoava os trigais maduros, eu era apenas o Bró, nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito,
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante, sou a farinha econômica do proletário,
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha,
Alimento de porcos e da triste mula de carga, o que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro,
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis,
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado,
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece,
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos,
Sou a pobreza vegetal agradecida a vós, Senhor, que me fizeste necessário e humilde.
Sou o milho!


(Cora Coralina)

2 comentários:

Eliene Dantas disse...

olá anna, passei para desejar uma ótima semana e ler as novidades do seu blog. bj

Cláudia Queirós disse...

Lindaaaaaaa!!! Tinha q ser de Cora Coralina.