domingo, 16 de novembro de 2008

A Viagem no Tempo, com Pery Lamartine...

A lembrança de Pery Lamartine...
...percorre cenários de São João...

...nas festas da terra sabugiense, com gente da terra da gente...


Recebi via e-mail, uma mensagem do Sr. Hiperides Lamartine, escritor de Serra Negra do Norte, RN, residente em Natal, onde ocupa a 33ª cadeira da Academia Brasileira de Letras do Rio Grande do Norte.
Sr. Pery Lamartine esteve em agosto, visitando São João do Sabugi, quando veio em cavalgada que homenageava Juvenal Lamartine; inclusive, no À Flor da Terra divulgamos um pouco da história de Juvenal Lamartine, assim como, poesia de Pery Lamartine e fotografias que marcaram a passagem da cavalgada em terra sabugiense ( para quem quiser rever, está no arquivo de agosto deste blog).
Para minha grata surpresa, recebi email do nobre escritor, onde ele cita que conheceu o blog através de um filho que reside em Minneápolis, nos Estados Unidos, e encantou-se com a Serra do Mulungu. Ele ainda destaca que é primo dos filhos do Sr. Basílio Gorgônio, inclusive, corresponde-se constantemente com Ivan Gorgônio, residente aqui em São João.
Na oportunidade, Pery Lamartine, me encaminhou linhas escritas sobre memórias que ele guarda da década de 30; quando freqüentava festas sabugienses, como amigo de José Geraldo Moura da Fonseca, irmão dos saudosos José Honório e José da Penha.
Segue a crônica feita pelo Sr. Pery depois de reencontrar o amigo José Geraldo, casualmente, em Natal; onde residem.
Deleite-se com a viagem no tempo, transportando-se, de "carona", no pensamento de Pery Lamartine - o cavaleiro, o poeta, o escritor e sobretudo, o sertanejo do Seridó.

Anna Jailma - jornalista e blogueira
Foto de Pery - Dercílio Morais
Fotos antigas: Enoque Pereira/arquivo de Ermita Lucena

SÃO JOÃO DO SABUGI

Encontrei Zé Geraldo no caixa do Supermercado. Quando me viu, deixou Alicinha na fila e veio estar comigo. Um "papo" agradável sobre a vida em São João, dos anos 30, do "nosso tempo" dizia ele. Voltou ao Caixa para pagar a conta, aí aproveitei e segui empurrando o carrinho das compras.
Enquanto caminhava entre as "ruas" do Supermercado o pensamento evadiu-se e voltou-se para aquele distante período, de quando éramos meio criança e meio adolescente, em São João do Sabugi, que nos deu tantas boas recordações.
Para mim, que sou dos antigos da região, Zé Geraldo é a imagem daquela localidade. O meu conhecimento com ele vem desde a nossa infância, quando eu morava em Serra Negra e não perdia as festas animadíssimas daquela cidade sertaneja. Ele, bem novo ainda, já participava da banda de musica dirigida pelo seu irmão mais velho. Eu, filho de fazendeiro em Serra Negra, cujas festas eram mais voltadas para os católicos fervorosos e adultos, a alternativa era ir para São João, onde eu podia encontrar os meus avós Zuza Gorgônio e D. Nanú, meus tios Gorgônio Artur e Basílio com seu pelotão de filhos, mas só convivi com Kival, da minha faixa etária, e o casarão (Vila Nanú) bem na Praça principal, de frente ao local onde se realizavam as festas.
As Noites de São João, ajudadas pela época, muitos fogos de artifícios e toda natureza era favorável; o milho verde produzido nas fazendas fazia a alegria do povo assim como todo tipo de comida típica que iam desde a canjica, a imbuzada até ao doce seco grande guloseima que todos nós apreciávamos.
As quadrilhas bem animadas eram dançadas em plena praça pública com grande participação dos munícipes. Os artesãos apresentavam os seus produtos e os Quininos eram os mais admirados pelas miniaturas de animais domésticos, feitos com um canivete em pedaços de imburana.
O grupo musical da família de Zé Geraldo composto de seu irmão (Zé da Penha e outro cujo nome que não lembro), um moreno Atanázio, Luiz Massilon com o seu "sax", e outros, eram o responsável pelo sucesso da Festa.
São João era assim, uma pequena comunidade, 99 % classe média onde todos se conheciam e se respeitavam; algumas poucas pessoas se sobressaíam da população, D. Nanú e o velho Zuza meus avós, que moravam na Fazenda Timbaúba dos Gorgônios, município de Ouro Branco, mas freqüentadores de Caicó; Noé Lucena um empresário do algodão que enriqueceu e mudou-se para Natal.
Gente formada, na época, só existia Dr. João de Brito, advogado que também morava em Natal e finalmente o meu tio Gorgônio Artur formado em odontologia morador do casarão Vila Nanú.
Havia um certo individuo, solteirão, que durante os dias festivos, andava desfilando pelas ruas, rigorosamente com traje festivo, um relógio no bolso no colete, com uma corrente de ouro aparente, distribuindo galanteios para as jovens casadoiras da cidade; se não me engano ele começava a palrear dizendo: "cobra verde não me morda!..".(*) e seguia por aí.
Existia uma querela entre Serra Negra e São João por conta da Sede Municipal. Com a Revolução de 30 o governo central fazia tudo para desclassificar Serra Negra, a terra de Juvenal Lamartine, o governador banido do país. Uma das ações foi transferir a Sede Municipal de Serra Negra para São João e nomeando Zé Maria, que não perdia a oportunidade de nos alfinetar.
Chegaram até a levar a imagem de Nossa Senhora do Ó, a padroeira de Serra Negra, como se a santa participasse de política partidária. Quando a política virou, a sede municipal retornou ao seu lugar certo. Apesar deste mal estar entre as duas localidades, havia respeito mútuo e as festas sabugienses eram prestigiadas pelo povo serra-negrense.
Bons tempos aqueles, em que se respeitavam à cultura seridoense.

(*) - Posteriormente José Geraldo me informou o nome do "poeta." Era "Joaquim Batista de Lucena" e a quadra completa era assim: "Cobra verde não me morda / Aqui não tem curador / Nos braços das moreninhas / Eu morro e não sinto a dor."

Pery Lamartine
Em 17/out/2008

3 comentários:

Anônimo disse...

Quanto mais conheço a história de São João do Sabugi, mais me apaixono por este cidade tão linda. Parabéns São João! Fico por aqui com saudades de sua beleza esplêndida, perfumada com o aroma da rosas e enfeitada pelas árvores do sertão.
Com carinho e saudades,
Fabíola Medeiros

ANNA JAILMA - annajailma@yahoo.com.br disse...

Que lindas palavras Fabíola. Quem ama São João tem sempre esta alma poética e cheia de emoção.
Apareça para olhar e sentir nossa São João de perto.
Abraços.

kalina disse...

Gostaria de saber o e-mail de Perry Lamartine.Sou prima dele em 2ºgrau.
Grata.