segunda-feira, 14 de março de 2011

Com a palavra, Djalma Mota!

Carnaval de Axé e Agonia...

Por Djalma Mota

Depois da folia de momo, a cidade antes abarrotada de visitantes turistas, cai num grande vazio ao voltar à sua aparente normalidade.

A ressaca que fica não é apenas a fadiga causada pela exaustão física dos foliões. Muito além dos exageros praticados por jovens levados pela “onda” do modismo, prevalece a preocupação da sociedade que padece ante a falta de respeito e de estrutura numa festa de elevadas proporções.

O que se observa? A cidade se comprime. As residências superlotam; faltam pousadas, hotéis e restaurantes; as artérias se estreitam e ficam interditadas ao serem tomadas pelo fluxo desordenado de veículos; não há estruturas sanitárias adequadas nos espaços reservados à folia; a coleta ineficiente dos resíduos sólidos - insuficiente em tempos normais, colabora com a poluição, causando sérios riscos à saúde; a exploração comercial é notória (locação de imóveis, transporte, alimentação, serviços); além da exploração sexual e prostituição de menores.

Até quando conviver com a mesmice? A falta de criatividade reina no carnaval caicoense. Alguns se beneficiam utilizando precárias estruturas. Não se planeja.

Fala-se inclusive ser o terceiro maior do nordeste. Será?

Por fim, o lixo musical que contagia a juventude contamina sem compaixão os ouvidos mais apurados daqueles que apreciam, ou melhor, apreciaram um bom repertório carnavalesco. As tradicionais marchinhas, o frevo e outros gêneros memoráveis estão ficando cada vez mais distantes da mídia moderna. Assim, não há duvidas... Caicó caminha deveras, para uma “CIDADE DE AXÉ E DE AGONIA”!

Sou do tempo do corso e dos blocos fantasiados; dos bailes tradicionais; do “Bloco do Lixo” de Pedro Mala Véia e sua burra de padre, de Chagas e sua calunga; dentre outros personagens;

Saudades! Muitas Saudades!

Aqui, jaz, meu saudoso carnaval.


Do blog À Flor da Terra: Não se pode deixar de reconhecer que os grandes eventos trazem geração de emprego e renda, além de promover o turismo local e levar o nome da cidade aos quatro cantos do mundo, etc. Mas não se pode - nem se deve - usar um cabresto e deixar de olhar para o lado, passando a enxergar somente o lado bom dos confetes e serpentinas. O pensamento de Djalma Mota é coerente com a nossa realidade. E aqui trago indagações: vamos seguir ignorando o lixo acumulado nas ruas principalmente nos grandes eventos como o carnaval? Se a demanda é maior, por que não se planeja a coleta conforme esta demanda? E o trânsito, vai seguir ano após ano sendo este caos desordenado, em Caicó? E a falta de estrutura sanitária? E a exploração comercial que começa no aluguel de residências e alastra-se pelo preço de tudo que se compra - comida, bebida, roupa e até corrida de mototáxi? É preciso enxergar os pontos negativos para se fazer crescer o carnaval, com beleza e estrutura, verdadeiramente. Não é "fazendo de conta" que os problemas não existem, que se constrói um grande evento. Pelo contrário, o pior cego é o aquele que não quer vê e é fingindo cegueira que damos asas aos problemas... Quando menos esperarmos, os problemas crescem mais que a festa e a devora, sem dó.

Anna Jailma - jornalista e blogueira

2 comentários:

João Quintino disse...

Jailma, o texto de Djalma Mota e seu comentário são muito pertinentes. O carnaval precisa ser repensado, a fim de recuperar sua feição mais cultural que econômica. E mesmo no tocante a ser um evento cultural, precisam ser discutidos quais os modelos a ser preservados, recuperados ou expandidos. Desde os anos 1980 que o modelo pernambucano tem sido paulatinamente substituído pelo modelo baiano, descaracterizando nossa folia. Nosso carnaval é filho de Pernambuco, da folia mais democrática que acontece por lá. A questão do investimento dos recursos públicos tem quer ser repensada e as condições adequadas precisam ser oferecidas. Tem cabimento haver plantão médico no carnaval, para atender bêbados e valentões, e faltar plantão durante o dia-a-dia, para os idosos e as crianças, por exemplo? Quem ganha mesmo com o carnaval: os donos das bandas, os intermediários, os donos dos carrinhos de cachorro-quente? E quem mais perde? Mais do que oportunas suas palavras e as de Djalma Mota. Abraço!

ANNA JAILMA - annajailma@yahoo.com.br disse...

Muito coerente seu pensamento. Tão coerente e rico que merece destaque no blog. Obrigada.