quinta-feira, 19 de março de 2015

Caicó: Do fio da meada à explosão






A bomba relógio no Rio Grande do Norte explodiu. O fio da meada foi desconsiderado, o estopim queimou e buumm! De onde vem esta bomba? Foi colocada quando em meio a sociedade?
As falhas nos sistemas penitenciários são muitas, desde sempre. A superlotação parece que já se tornou “normal” de tão comum em todo país. E tornar o presidiário melhor do que entrou no presídio, ainda é um dos maiores desafios da sociedade, apesar da difusão de conhecimento, de estudo de comportamento, de inúmeros projetos sociais visando isso.
Foram rebeliões em todo Estado, destruindo presídios. E isto inclui grades quebradas, colchões queimados, tudo depredado. Entre as reivindicações estão: reclamação da alimentação, a superlotação, a dificuldade em viabilizar visitas e a que parece ser a maior exigência: saída de Dinorá da direção da Penitenciária de Alcaçuz.
Da Penitenciária Estadual do Seridó Desembargador Francisco Pereira da Nóbrega, “Pereirão,” de Caicó, um presidiário ligou para uma rádio da cidade de Caicó, falando nas reivindicações - alimentação, assistência médica, resolver a superlotação, e exigência da saída de Dinorá Simas da Penitenciária de Alcaçuz -  e fazendo claras ameaças de expandirem as rebeliões para Estados vizinhos e as ruas. Ele destacou que se a Força Nacional invadir o pavilhão - como eles tiveram conhecimento que fizeram em outras penitenciárias - então, eles “vão começar a oprimir a rua”.
Ao contrário dos presidiários das penitenciárias, os adolescentes do CEDUC, conforme entrevista de uma educadora social em rádio da cidade, não se estendiam muito nos detalhes quando se falava nas reivindicações. Eles também citavam a saída de Dinorá da direção da Penitenciária, e pediam melhorias, mas, quando indagados sobre quais as melhorias necessárias, não citavam; ou seja, o verdadeiro fator que motivou a rebelião no CEDUC de Caicó foi o comando de outras penitenciárias. Eles não têm nenhuma ligação com a direção de Dinorá, e se não entram em detalhes especificando “em que” querem melhorias, mostram que não existe, de fato, uma insatisfação com a instituição, ao ponto de destruir o local e manter pessoas de refém. No CEDUC, educadores permaneceram um longo período como reféns, inclusive as mulheres foram liberadas depois de 3 horas de negociação, mas, dois homens passaram a madrugada sendo reféns, havendo liberação somente na manhã do dia seguinte.
Observando a articulação entre presidiários de diferentes penitenciárias e até adolescentes infratores de Caicó, que estão internos no CEDUC de Caicó, um pensamento vem a cabeça: ‘já pensou se a rede socioassistencial, envolvendo secretarias municipais e estaduais, e diversas instituições, fosse interligada, tivesse um vínculo tão bem organizado, como estes articuladores do crime?! Talvez o fio da meada não acontecesse, talvez não tivéssemos tanta vulnerabilidade social, talvez as crianças não tivessem a violência tão próxima de seu cotidiano, ao ponto de se ‘acostumarem’ com isso e passarem a enxergar a violência como algo banal e natural da vivência humana, fazendo dela - já a partir da adolescência - seu eixo de partida e seu foco de futuro. 
Enquanto isso, os artistas de Caicó e Seridó, permanecem incansáveis - e em alerta - diante das mobilizações em prol da gestão no Centro Cultural Adjuto Dias. Dois "elefantes brancos" na cidade - Centro Cultural e Castelo do Engady - permanecem sem nenhuma atuação satisfatória enquanto adolescentes usam a droga e as infrações como bússola de seu cotidiano.
Mas se tudo percorreu este longo caminho, do fio da meada, passando pela queima do estopim, até chegar na explosão da bomba...O que fazer para deter tamanho caos?! Por onde começar?! Tem jeito?!
E quem disse que o caos é somente no Sistema Penitenciário? Em Caicó, está em greve todos os profissionais de nível superior, do serviço público municipal. O Conselho Municipal dos Direitos da Mulher está em campanha para tornar público o Hospital do Seridó, com objetivo de com isso conseguir a Rede Cegonha e outros projetos que dão melhor atendimento as mulheres e crianças. No Hospital que deveria ser de referência para parto na região, todos os anos tem morrido mulheres de parto, onde também morre o recém-nascido ou nascem com sérias sequelas físicas e até neurológicas. Um caso sério que vem há anos acontecendo na região, sendo "empurrado com a barriga". Fato este que já está provocando redução no nascimento de crianças em Caicó, porque quem tem melhores condições financeiras, não 'arrisca' ter filho em Caicó e viaja para Natal ou mesmo Patos, PB. Caicó caminha para ser a "cidade pólo, onde não nasce ninguém".
E o Hospital Regional do Seridó, como está? O povo e os médicos falam em falta de estrutura hospitalar, poucos recursos disponíveis, mas o quem tem sido feito para resolver isto, ninguém sabe, ninguém vê. São tantos os relatos de diagnósticos equivocados, que se tem "vergonha alheia" de comentar.
O que acontece, afinal? Todos os “membros” que compõem a nossa sociedade estão desmoronando? Vivemos uma situação decisiva: ou tudo começa a se resolver agora, já, ou tudo afunda de uma vez. E ninguém se engane: ainda tem muita bomba relógio que pode explodir se não aparecer quem barre o fio da meada, evite a queima do estopim e consequentemente, empate a explosão.

Anna Jailma - jornalista e blogueira

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